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A infncia no Sculo XIX
Mirian L. Moreira Leite.


Neste final do sculo XX a infncia tornou-se uma questo candente para o
Estado e para as polticas no governamentais, para o planejamento econmico e
sanitrio, para legisladores, psiclogos, educadores e antroplogos, para a
criminologia e para a comunicao de massa. Desde os primeiros anos de vida de
todos ns, quando se acreditava na inocncia de diferentes graus da infncia,
relativa  vida e  camada econmica e social dos adultos circunstantes, que
poderiam ser ou no a famlia consangunea ou a instituio de proteo ou
represso, ela ganhou uma autonomia da famlia, substituindo-a parcial ou
completamente pela faixa etria (a turma ou o bando), ao ser atraida da casa para a
rua, por fora da luta pela sobrevivncia nas grandes cidades, do encontro com a
marginalidade social e com a morte prematura por desnutrio ou pela violncia.


Esta situao se estampa nas comunicaes apresentadas na XX Reunio
Brasileira de Antropologia, Salvador, Bahia, em abril de 1996, onde, afora os
trabalhos sobre famlia e educao formal, a maioria focalizou os "meninos de
rua", o trabalho infantil, a pobreza, a delinqncia e a violncia, a excluso da
cidadania e as polticas pblicas. O ltimo boletim do IBGE-UNICEF . Perfil
Estatstico de Crianas e Mes no Brasil de 1989, d conta da mortalidade
infantil e da sade na dcada de 80, deste sculo, em termos quantitativos.


A intensa dramaticidade dos problemas da infncia nos dias que correm
projetou nessa fase da vida um interesse e uma preocupao intensos. Muitos
desses problemas no so novos, nem menos trgicos nos sculos anteriores. Mas
antes da industrializao e da urbanizao, com a conseqente exploso
demogrfica nas cidades mdias e maiores, ficavam confinados  obra literria de
escritores europeus e americanos e  documentao de asilos, instituies religiosas
e leigas de proteo aos despossuidos. A Encyclopaedia Britannica de 1771
inclui um artigo de 40 pginas sobre Obstetrcia, mas limita-se a uma linha, para
explicar que "infant" denota uma criana pequena. A infncia passa a ser
"visivel" quando o trabalho deixa de ser domiciliar e as famlias, ao se deslocar e
dispersar no conseguem mais administrar o desenvolvimento dos filhos pequenos.
 ento que as crianas transformam-se em "menores", como observou Lia Fukui,
e rapidamente congregam as caractersticas de abandonados e delinqentes.
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No sculo XIX a criana , por definio, era uma derivao da que era criada
pelos que lhe deram origem. Eram o que se chamava "crias" da casa de
responsabilidade (nem sempre assumida inteira ou parcialmente) da famlia
consangnea ou da vizinhana. O abandono de crianas e o infanticdio eram
prticas encontradas entre ndios, brancos e negros em determinadas circunstncias,
distantes da concentrao devastadora nas cidades, da perversa distribuio de bens
e servios entre camadas sociais e das fronteiras que entre elas se estabeleceram.
As Rodas de Expostos comeam a existir no sculo XVIII e ainda apresentam um
quadro controvertido . Organizadas nos pases europeus para salvar da morte
crianas abandonadas , provocavam uma mortalidade infantil agora registrada e
verificvel. Asilos de rfos e projetos de regenerao dos pobres e
"vagabundos" pelo trabalho e pelo servio militar j preocupavam os Capites
Gerais e os Governadores de Provncias.


O estudo da criana no sculo XIX  dificultado pela escassez de estudos de
Demografia Histrica. Maria Luiza Marclio (Costa, Iraci del Nero, 1986)
denomina o perodo que vai da segunda metade do sculo XVIII at o
Recenseamento de 1872 de proto-estatstico, pois inclui estatsticas vitais e
recenseamentos de valor muito desigual e de dificil comparabilidade. Mesmo
quando comea a haver uma serie decenal de recenseamentos e estatisticas de
registro civil e de movimentos populacionais, nos cartrios, ainda no obedecem a
um sistema universal e confivel. (pp. 22 -25)


No caso de dados quantitativos, as crianas, como as mulheres, tm a sua
insero no grupo familial configurada muitas vezes pela ocultao no interior do
grupo. Apesar dos trabalhos estatsticos s vezes terem adotado uma abordagem
micro-analtica, perseverante e minuciosa, as denominaes adotadas para designar
os dados so freqentemente ambgas e disfaram preconceitos raciais,
tradicionais e de classe. Lembre-se que crianas sem pai podem ser rfos, filhos
ilegtimos, expostos ou ter um pai ausente. A denominao de bastardos, com
todas as conotaes do termo, pesa sobre elas como um decreto de excluso.
Abandonados, mendigos e infratores freqentemente foram confundidos sob o
nome de menor, que nunca designa filhos de familias das camadas mdias e altas , e
tem conotaes negativas desqualificantes.


Alm de no serem ainda um foco de ateno especial, as crianas eram
duplamente mudas, nas palavras de Katia de Queirs Mattoso.( Del Priory, Mary,
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1992) No eram percebidas, nem ouvidas. Nem falavam, nem delas se falava. Por
isso,  preciso comear propondo: quem eram as crianas? A distino mais clara 
a que se fundamenta na falta de desempenho econmico. Tomando-se a populao
como um todo, uma caracterizao ntida  a do perodo de 0 a 3 anos, em que,
como ainda no andam, os pequenos so carregados, pelas mes, pelos irmos ou
pelas escravas. Em alguns textos, foram encontradas expresses como "desvalidos
de p" que designavam aquelas que j andavam e , portanto, podiam desempenhar
pequenas tarefas. Para o Cdigo Filipino, que continuou a vigorar at o fim do
sculo XIX, a maioridade se verificava aos 12 anos para as meninas e aos 14 para
os meninos, mas para a Igreja Catlica, que normatizou toda a vida das famlias,
nesse perodo, 7 anos j  a idade da razo.


Tendo em mente que a infncia no  uma fase biolgica da vida, mas uma
construo cultural e histrica, compreende-se que as abstraes numricas no
podem dar conta de sua variabilidade. Dos 8 aos 12 anos, os meninos so
considerados adultos-aprendizes e vestem-se (de acordo com a camada social)
como tais. Por esta razo, preferiu-se apreender o passado no momento em que foi
reconhecido por testemunhos, por diferentes graus de percepo de diversidade
irredutvel, aceitando a noo de fragmento de Walter Benjamin, como o claro
que ilumina o todo.


Esses fragmentos que comportam pormenores isolados e relaes mtuas, a
cujo sentido  possvel chegar pela aproximao por comparao e por confronto
com o presente foram encontrados no estudo intertextual dos Livros de viagens de
estrangeiros, que estiveram no Brasil de 1803 a 1900 e na leitura de alguns livros
de Memrias de homens e mulheres que foram crianas durante esse sculo.


A hiptese de trabalho  que os viajantes apresentam aspectos exteriores das
diversas crianas encontradas, enquanto as memrias seriam os discursos possiveis,
a expresso infantil de algumas crianas privilegiadas (que aprenderam, tiveram a
oportunidade de escrever e tornar pblico como viveram e sentiram a infncia).


O crivo bio-bibliogrfico a que as fontes (viajantes e memrias) foram
submetidas refere-se a condies da produo dos livros que esclarescem, ampliam
ou restringem as informaes resultantes de seus textos. Entre os viajantes do
sculo XIX, que escreveram sobre a infncia houve 38 homens e 6 mulheres. No
caso das Memrias, escolhemos 2 homens e 3 mulheres em diferentes regies do
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Brasil (Minas Gerais, Pernambuco, So Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do
Sul).


Lembre-se que, apesar de j haver viagens recreativas e educacionais
organizadas desde meados do sculo XIX, so poucos os livros de viagem dessa
verso secularizada de peregrinos medievais, nas palavras de Peter Burke( 1996). .
A atividade exercida pelos viajantes estrangeiros analisados neste trabalho era de
escritores, mdicos, comerciantes, pastores protestantes, diplomatas, oficiais da
marinha, naturalistas, professores, pintores, mercenrios, jornalistas, advogados e
agrnomos, atividades s vezes concomitantes, e que escreviam em portugus.
francs, ingls, alemo, italiano e dinamarqus.


As atividades exercidas (s no fim do sculo XIX as profisses comeam a se
especializar ) so indicadores preciosos da percepo social do viajante. Os
professores, os naturalistas, os pastores e os pintores demonstraram maior argcia
e interesse pelas crianas que viram e pelas suas relaes com os adultos, se bem
que seria mais adequado falar de como os adultos as disciplinavam ou ignoravam.
Os naturalistas tinham um plano estabelecido dos campos em que se deveriam
deter. Os professores e pastores protestantes tinham interesse profissional de
conviver e observar a infncia. Mesmo assim, os livros se diferenciam pelas
qualidades do escritor, capazes de transmitir melhor o que conseguiram apreender.


A maioria deles ficou ou viajou pelo Brasil pelo menos um ano, mas h os que
passaram pelo Brasil por um ms e os que ficaram de 5 a 30 anos no pas. Vinham
patrocinados por diferentes mecenas europeus ou norte-americanos, pertenciam a
misses estrangeiras oficiais,  marinha, ao exrcito, a misses culturais e
exploratrias ou ainda ao Corpo Diplomtico. Houve aqueles que foram
contratados pelo Governo Brasileiro e os que estavam ligados a Sociedades
Cientficas Europias.


Os livros de viagem apareceram sob diversas formas que, freqentemente, de
acordo com o pblico-alvo (na linguagem dos editores atuais) apresentam um
contedo mais ou menos aprofundado, mais ou menos espontneo ou auto-censurado.
A maioria  constituida de relatrios administrativos ou cientficos,
muitos so os dirios de campo, correspondncia com a famlia ou com amigos,
outros so memrias e gravuras, havendo os que correspondem alternadamente a
todas essas formas.


O longo manuseio desses livros revelou que,  parte os exageros, preconceitos
da cincia do tempo dos autores, de sua posio social e poltica, transmitem
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experincias sociais, a partir de interpretaes individuais. Numa crnica de Ea de
Queirs (Gazeta de Notcias do Rio de Janeiro, 28/ 04/ 1894) (Min, Elza l995) ele
conta a histria de um ingls que, desembarcando em Calais de madrugada, e
avistando um coxo no cais, escreve no seu livro de notas: "A Frana  habitada
por homens coxos". Um perigo constante dos textos de viajantes  esse: basear-se
naquele pequenino lado do fato, da ao do homem, da obra, que aparece, num
relance, a seu olhar fugidio. Por um gesto, julga um carater, por um carter, avalia
um povo. Alguns crticos consideram a literatura de viagem como a denncia de
Ea de Queiroz aos pecados e vcios do jornalismo: como uma massa espumante de
juizos ligeiros, sem estudo, nem documentao, sem certeza alguma.  por essa
razo que o leitor, s aps a primeira e s vezes a terceira, consegue perceber que
as evocaes dos testemunhos transmitem descries densas, comparaes,
anlises e reinterpretaes. Tambm o cruzamento com os outros livros de
viajantes do mesmo perodo aponta e explicita pontos mal delineados ou
incompreendidos e estabelece relaes que podem ser ampliadas por outras
variveis, provenientes dos ns da narrativa, bem como das reaes do pblico
suposto e efetivo aos universos e s palavras do autor. Como as palavras tm
pesos diferentes de acordo com quem as utiliza e a quem se dirige o discurso,
incluem sentidos superpostos e classificaes supostas que nem sempre so
apreendidas pelo estrangeiro ou por qualquer indivduo de fora do grupo.


At mesmo a gravura da ligao de mes e filhos pode ser percebida
diferentemente, como aproximao ou afastamento. A criana amarrada por um
pano largo s costas da me escrava foi vista como provocando deformaes no
filho. Essa maneira de carregar o recm-nascido deixa livres os braos da me e
mantm a criana aconchegada ao calor do corpo. Os diminutivos, tambm, tanto
podem significar tamanho pequeno quanto pouca idade ou simplesmente uma
forma afetiva de tratamento, sem referncia a tamanho ou cor, como "meu
neguinho". O significado de cria e moleque foi compreendido de muitas formas
diferentes. Podia ser um tipo de criado, o muleque ou muleca nascidos em casa do
senhor ou filhos de escravos. Moleque, que significa negrinho, passou a ser
indivduo sem palavra ou gravidade, canalha, patife, velhaco ou s menino de
pouca idade, ou ainda escravo jovem recm-chegado da frica. O "hausmoleque"
apresentado no livro de Oscar Canstatt( p. 96),  um menino negro, flautista,
sentado disciplinadamente numa cadeira da sala, ao lado de outros instrumentos
musicais. Essas variaes de peso das palavras e das expresses indicam um jogo
combinado de subjetividade e objetividade e o papel de um personagem na vida de
outro.
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Essas dificuldades de transposio dos textos para o conhecimento da
concretude histrica so reveladoras da rede de malentendidos que entremeia a
construo do texto histrico. Assinalam, por outro lado, as cautelas com que os
textos precisam ser selecionados, comparando livros escritos de 1803 a 1900, em
busca de semelhanas, diferenas, contradies, transformaes e permanncias.
Focalizam a necessidade da relativizao dos dados e rompem uma viso
etnocntrica e classista do passado, acabando por fornecer pormenores
esclarescedores, at a respeito de dados quantitativos, como no caso do Reverendo
Walsh (Iv. p. 196), quando se refere  negligncia com que foi feita uma Tabela de
Populao, pelo fornecimento de dados incorretos, para fugir ao recrutamento
militar em 1828 . So casos em que os prprios viajantes criticam suas informaes
e as maneiras de obt-las.


Quanto s Memrias, elas so fontes preciosas de conhecimento das relaes
interpessoais e das variedades de contatos tnicos e de camadas sociais. Trs
questes atravessam essas relaes: o sistema escravista de trabalho, a educao
informal e a fragilidade da vida humana no periodo ou seja, o alto ndice de
morbilidade e de mortalidade. As bexigas fizeram grandes estrados em todas as
partes da Amrica antes da instaurao da vacina anti-varilica em 1811. As febres
e o clera dizimaram arraiais em pnico, j castigados pela multiplicao de casos
de bcio, cegueira e tuberculose, afora as doenas infantis e adultas de que no se
conheciam as causas. Mesmo para as familias de maiores recursos econmicos
havia escassz de mdicos e era limitada a sua formao.. As mulheres cuidavam
das crianas e dos doentes da famlia e dos escravos consultando o Chernovitz e
acrescentando-lhe rudimentos de homeopatia e o conhecimento popular de plantas
e animais. No livro dos pastores protestantes Kidder e Fletcher, que vieram ao
Brasil com a misso de distribuir Biblias  populao, existe uma descrio de
quando o "o clera fez o seu aparecimento no Rio, [e] a cidade se converteu num
vale de terror. Rezas e amuletos foram anciosamente procurados, e a toda hora se
inventavam preventivos supersticiosos. As oraes dos santos eram pregadas
sobre a pele, como entre os maometanos da Arbia e os pagos da ndia. Pinturas
mal executadas foram trocadas por alguns vintens, e uma estrela contendo uma
prece  Virgem Maria, chamada  miraculosa estrela do cu" foi considerada como
um resguardo certo para todas as pessoas que a possuissem. Avisos como os
seguintes, apareceram na Imprensa diria: "Orao para benzer as casas" Contra a
epidemia reinante, ornada de emblemas religiosos, troca-se por oitenta ris, na rua
dos Latoeiros n. 59. ... As imagens eram transportadas atravs das ruas; imensas
procisses de velas acesas, em que se notavam delicadas senhoras descalas, eram
freqentemente realizadas. Com todas essas precaues a peste no cessou, apesar
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da cidade no haver perdido o seu aspecto normal de negcios. O senso comum
porm, no abandonou o Rio, apesar do pnico que ento prevaleceu. As
autoridades seculares, instadas pelos habeis diretores dos principais jornais da
cidade acabaram por proibir as procisses, pois expunham os seus freqentadores 
disseminao da doena: assim os santos no tiveram mais procisses e as jovens
damas s ficaram descalas em casa. 1853, Kidder e Fletcher, (I -175-176).


As Memrias mostram aspectos internos e s vezes marcas psicolgicas
deixadas por essa presena da morte no cotidiano das famlias. Do pormenores
dos processos da preparao para a vida adulta, entre as crianas brancas e as
negras. As mes como "mestras naturais", as primas ensinando canto e piano, as
amas recontando as tradies das familias e dos escravos, os tios abrindo as
bibliotecas e interessando sobrinhos e netos nos autores, encomendando livros na
cidade ou na Corte ou se propondo a dar aulas de geografia e de fsica. As mes
ensinavam as meninas e as escravas a rezar, a fazer renda, a costurar. Os oficiais
ensinando a ferrar animais, a fazer sapatos, a construir cercas. As doceiras a fazer
doces e flores artificiais, a dissecar animais e plantas, a fazer e enfeitar pratos.


Nas Memrias transparecem as origens e as aplicaes diretas do saber
emprico transmitido pelos provrbios (o que deve ser feito), chamados ento, em
algumas regies de anexins. So a prpria smula dos Conselhos a Minha Filha,
que tiveram tantas edies at este sculo, reunindo frmulas de higiene, etiqueta,
economia, poltica e relaes humanas. Expressos em verso e prosa, resumiam uma
experincia de geraes. s vezes com alcance imediato e em outras, projetando-se
para toda a vida, incorporavam-se obrigatoriamente ao cotidiano de todos. As
governantas e os professores funcionavam como elos entre pais e filhos, pela idade
e pelo preparo, reforando junto aos filhos os padres sociais tradicionais. O papel
educativo das visitas entre familias e propriedades, s vezes muito isoladas umas
das outras, sobressai pelas trocas de notcias, de receitas de remdios e de
alimentos, ou ainda de revelaes surpreendentes. As injustias, arbitrariedades e
contradies surgem atravs das evocaes, revelando um clima de fatalismo e
temor que perpassava a convivncia das famlias brancas e negras, com gamas
diferentes de emoes, disposies e aspiraes, nem sempre accessveis aos de
fora da casa.


Nesta apresentao da infncia atravs do sculo XIX ser deixada de lado a
seqncia cronolgica dos autores (pela data de chegada ao Brasil), suas
caractersticas pessoais e culturais, para possibilitar um alinhamento de dados
descontnuos e fragmentados de diferentes crianas descritas individual ou
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coletivamente, escolhidas por sua condio de dependncia dos adultos
circunstantes. Trata-se da reconstruo de um perodo da vida (que foi e continua
a ser extremamente varivel) vivido por personagens que acrescentam s diferenas
de cor, condies sociais e capitais simblicos muito diversos. Esse recorte 
suprido pelo contexto de relaes familiares ou comunitrias de onde e com quem
os indivduos foram observados ou descritos. As diferenas entre as pessoas e as
relaes interpessoais e sociais, as mudanas e as permanncias do que se conhece
sobre a infncia nesse perodo so recortadas das obras dos viajantes, para formar
um texto caleidoscpico.


Seria relativamente simples condensar o material selecionado sobre a infncia, a
partir da Literatura de viagem e das Memrias. Com o amparo dos diversos
trabalhos j elaborados sobre a infncia no Brasil (V. Bibliografia) poder-se-ia
examinar criticamente as fontes e revelar o conhecimento adquirido. Esse
procedimento, porm, privaria o leitor do sabor dos textos que, com todas as
limitaes apontadas, conservam sugestes e subjetividades que ficariam ocultadas
em apreciaes sumrias. Optou-se, portanto, por uma montagem sistemtica de
textos sobre aspectos da vida das diferentes crianas encontradas no Brasil, nesse
sculo. Crianas africanas, transportadas com ou sem famlia, mesmo depois do
trfico negreiro ter sido proibido, filhos de imigrantes alemes, crianas brancas
pobres e ricas, filhos de escravos, negrinhos e mulatinhos.


Acrescentou-se s cautelas na seleo dos textos uma organizao
fundamentada nos contedos. Como a questo focalizada faz parte dos fenmenos
de longa durao, deixou-se de lado a ordem cronolgica e agruparam-se os textos
sob dois ttulos principais: as Marcas da Escravido e a Preparao da Vida Adulta.
Os sub-ttulos separam os autores e captulos do mesmo autor.


As Marcas da Escravido
Escravo Branco
Certo dia, em companhia de um amigo, parei numa venda na estrada da
Tijuca para comer alguma coisa. Vi alguns negrinhos brincando no quintal da
casa, e entre eles um bonito menino de raa branca. Tinha um rosto delicado,
cabelos claros e encaracolados, olhos azuis e uma pelo to clara como a de um
europeu. Atraido pelo belo garotinho, afaguei-o por um momento e perguntei ao
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dono da venda se era seu filho. O homem disse que no, informando que ele era
seu escravo, mas filhos de um ingls, cujo nome mencionou para mim. Chocado e
cheio de incredulidade, aventei a hiptese de seu pai ignorar que a criana
vivesse como escrava; fui ento informado de que o pai no s sabia do fato como
tinha o costume, conhecido de todos, de vender seus filhos juntamente com a me
escrava! Oh, meu amigo,  isso a escravido! A temos a histria de Thomas Inkle
revivida por um europeu no sculo dezenove, que vende a mulher que fazia as
vezes de sua esposa, aumentando o seu valor ao vender junto com ela o seu
prprio filho. 1828, R. Walsh( I, p. 164)..


Meninos no mercado de escravos.
... Quase todas as casas dessa rua [Valongo] so depsitos de escravos, que ali
ficam  espera de seus compradores. Esses depsitos ocupam os dois lados da
rua, e ali as pobres criaturas so expostas  venda como qualquer outra
mercadoria. Quando chega um comprador, eles so trazidos  sua presena,
sendo por este examinados e apalpados em qualquer parte do corpo, exatamente
como j vi aougueiros fazerem com os bois. ... Freqentemente tive
oportunidade de ver senhoras brasileiras nesses mercados. Elas chegam, sentam-se,
examinam e apalpam suas aquisies e as levam consigo, com a mais absoluta
indiferena. Muitas vezes vi aqui grupos de senhoras bem vestidas comprando
escravos com a mesma animao com que as senhoras inglesas fazem compras
nos bazares. ... Senti-me atrado por um grupo de crianas, uma das quais, uma
menina, tinha um ar triste e cativante. Ao me ver olhando para ela, o cigano a fez
levantar-se dando-lhe uma lambada com uma comprida vara, e lhe ordenou com
voz spera que se aproximasse. Era desolador ver a pobre criana de p  minha
frente, toda encolhida, em tal estado de solido e desamparo que era difcil
conceber como pode chegar quela situao um ser que, assim como eu,  dotado
de uma mente racional e uma alma imortal. Algumas das meninas tinham um ar
muito doce e cativante. Apesar de sua pele escura, havia tanto recato, delicadeza
e cordura nos seus modos que era impossvel deixar de reconhecer que eram
dotadas dos mesmos sentimentos e da mesma natureza das nossas filhas. O
vendedor preparava-se para colocar a menina em vrias posies e exibi-la da
mesma maneira como faria com um homem, mas eu declinei da exibio e ela
retornou timidamente ao seu lugar, parecendo contente por poder se esconder no
meio do seu grupo. ... Uma das coisas que me chamou ateno ali foi um grupo
de meninos que pareciam ter formado uma espcie de sociedade. Tive
oportunidade de observar vrias vezes, ao passar pelo local, que esse grupinho se
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reunia sempre junto a uma janela gradeada. Pareciam muito ligados uns aos
outros e sua bela amizade nunca era perturbada por brigas, na verdade, o
temperamento de uma criana negra  geralmente to equilibrado que ela no 
afetada por essas ligeiras e mrbidas sensaes que freqentemente causam
irritao e mau humor em nossas crianas. No me lembro de jamais tervisto
uma criana negra nervosa ou irritada, e muito menos acometida desses fteis
acessos de raiva em que se comprazem as crianas da superior raa branca. Eu
s vezes levava bolos e frutas nos bolsos e os distribua para o grupo. Era muito
agradvel ver a maneira generosa e desprendida com que eles os dividiam entre
si. No surgiam brigas entre eles, e ningum tentava reservar para si o melhor,
egoisticamente. A criana que por acaso recebia de mim os presentes, pegava-os
to delicadamente, olhava para mim com tanta gratido e os distribua de
maneira to generosa que eu no podia deixar de achar que Deus tinhs dado a
eles, como uma compensao por sua pele escura, uma dose acima do comum de
amorveis qualidades humanas. 1828-1829 R. Walsh,( I, 152-154).


Tortura para todas as idades
Os grilhes no poupam nenhuma idade e nenhum sexo. Encontrei esta
manh uma jovem de Moambique, muito bonita, com um colar de forcado duplo.
A jovem no poderia ter mais de dezessete anos. Certa tarde, h alguns dias,
quando me encontrava no balco de uma casa na Rua da Alfndega, uma
negrinha com quatro quintos de seu corpo nu, passou vacilante pelo meio da rua,
com uma enorme tina de lavar roupa presa por cadeado e uma corrente ao
pescoo. "Explique-me isto, senhor C.", disse eu. "Oh, ela vai lanar gua suja 
praia e, tendo provavelmente o hbito de passar pelas vendas  impedida desta
forma, pois a repugnante vasilha no seria admitida na venda. Alguns escravos
trocavam barris por bebidas, so agora enviados  fonte e  praia acorrentados,
como aquela velha." 1846, Thomas Ewbank,(, 94.)


Fecundidade
As brasileiras so extraordinariamente fecundas. No raras famlias tm 12 e
at 16 filhos. Contaram-se que uma mulher teve 33! Os partos infelizes so
verdadeiras excees e geralmente de estrangeiras (...) Os sinais de puberdade
apresentam-se nas meninas no dcimo ou no undcimo ano. Em algumas mais
cedo ... e no amamentam. Todas as amas so negras que, sem exceo, tm
leite para duas crianas (92-93.) A aparncia juvenil dura pouco ... Alis, ambos
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os sexos raras vezes chegam  idade avanada (131). Os filhos nascidos de
brancos e negras podem ser emancipados, se em suas primeiras semanas aps o
nascimento o pai fizer valer os seus direitos ... As mulheres pretas raramente tm
mais de quatro filhos de pais brancos. As brancas tm grande quantidade ... O
ventre materno  que faz livres ou escravos. 1826 Carl Schlichthorst( p. 134).


Relaes entre Senhora e Escravos
Os brasileiros tm familias numerosas, e no  incomum verem-se dez, doze ou
quinze filhos de uma mesma me... Vi um senhor --um lavrador --na provncia de
Minas Gerais, que era um dos vinte e cinco filhos da mesma me. Fui mais tarde
apresentado a essa digna matrona, no Rio de Janeiro.( 15). Uma senhora, de
familia nobre, pediu um dia a uma amiga minha, que lhe dissesse se conhecia
algum que desejava lavar roupa fora, pois ela tinha nove escravas preguiosas
em casa, para as quais no tinha ocupao. Contou melancolicamente a sua
histria, dizendo " um princpio nosso no vender nossos escravos, so os
tormentos da minha vida; no consigo arranjar trabalho bastante para conserva-los
fora da vadiao e da preguia." Uma outra disse: "Os meus pretos so a minha
morte" 1851. Kidder e Fletcher,( I, p. 188).


Natalidade e Mortalidade
Mesmo nas cidades grandes [as crianas] morrem muito em tenra idade. Mas
na realidade, nascem relativamente poucas crianas no Rio de Janeiro e, devido a
fraqueza de constituio, menos ainda se conservam vivas, mesmo nas familias
que se destacam pelos cuidados habeis e ternos com que tratam suas proles.
Muitas se vo, por causa de maneiras imprpias de tratar, de negligncia, ou
indulgncia danosa, freqentemente mistura de uma com a outra. Deve-se levar
tambm em conta a idade prematura em que as pessoas novas deixam j de ser
consideradas como crianas. Alm disso, os filhos de escravos acham-se
incluidos juntos com seus pais, por isto que pertencentes  mesma classe. E 
doloroso acrescent-lo, usa-se dos meios da mais baixa espcie a fim de impedir o
nascimento de crianas, sendo que o infanticdio no  de forma alguma raro.
Que  que se pode esperar das mulheres desta terra, quando transformadas em
mes? Por felicidade, neste clima to quante, no se exige do desvelo das mes
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que se ocupe desde cedo com as roupas das crianas, pois que tanto meninos
como meninas vivem a tranar nus pela casa, at que atinjam cerca dos cinco
anos, e durante trs ou quatro ainda, aps essa idade, nada mais usam do que a
roupa de baixo.  verdade que nesse estado s se veem as pessoas de casa, ou os
amigos ntimos. Quando, em raras ocasies, tem que ir  Igreja ou em visitas,
vestem-nas com toda a elegncia rgida de uma poca que j passou; no h
diferena, salvo nas dimenses, entre os trajes de um rapaz que faz pouco
adquiriu o garbo viril e os de seu pai, entre os de uma menina e os de sua
majestosa me. 1810-1817 .John Luccock, 28 e 79.)


Amamentao
Logo aps o parto, os parentes se apossam do recm-nascido e se revezam
perto dele, dia e noite, at o dia do batismo, a fim de preserv-lo, dizem, das
bruxas ou feiticeiras que se transformam em mariposas ou morcegos e fazendo-se
invisiveis, sugam o sangue da criana pag. A esses guardas cabe tambm
renovar os ramos de arruda colocados nos cantos do bero e conservar
religiosamente os talisms e amuletos logo suspensos ao pescoo da
criana. 1816-1831 ,J. B. Debret, (I, 193)


Se o recm-nascido pertence a uma classe distinta, raro  que a prpria me o
amamente: este cuidado  incumbido usualmente a uma mulata ou preta. Porm,
quaisquer que sejam as circunstncias que venham mudar os costumes interiores,
cumpre dizer, em abono dos Brasileiros, que a ama no  considerada como
escrava, mas sim como fazendo parte da familia. 1816, Ferdinand Denis (213).


Com poucas excees, todas as jovens negras no tm outra preocupao
alm da de ser mes.  uma idea fixa, que toma conta de seu esprito desde que
se tornam nbeis, e que realizam assim que tm ocasio. Este fato, que o ardor do
sangue africano bastaria, talvez, para explicar , sobretudo ento, um resultado
calculado. Na verdade, a maternidade no as levar, com toda a segurana ao
bem-estar, s satisfaes do amor-prprio, ao usufruto da preguia,  coqueteria
e  gulodice? Uma ama-de-leite  alugada por mais que uma engomadeira, uma
cozinheira ou uma mucama. Para que d honra e lucro, colocada numa boa casa,
o senhor, durante a gravidez, lhe reserva os trabalhos mais leves. Aps o parto, a
rapariga v suas camisas destruidas e suas roupas velhas distribuidas aos
companheiros, enquanto seu guarda-roupa  renovado e recebe enxoval novo. 
21#
22
roupa grosseira, mas bem feita, vestidos simples a que a senhora, se os meios lhe
permitem, colocou dois ou trs metros de renda comum e um vestido branco com
seis babados --realizao do sonho dourado constante das jovens negras --eis o
primeiro benefcio da maternidade. A boa aparncia, a roupa nova, as relaes
importantes do seu senhor, lhe abrem a porta duma casa rica, ou que deseja
aparent-lo, o que, para ela, d no mesmo. Entre os comerciantes da cidade 
questo de amor-prprio tere uma ama-de-leite que ostente um luxo insolente.
No  impossivel, tambm, que seja uma especulao. O luxo da ama exprime a
presperidade da casa, a menos que sirva para tornar pblica, a verdadeira
situao econmica... As amas-de-leite, como se v, tm mil razes para apreciar
essa existncia dourada durante a qual os papeis se invertem, pois os brancos
obedecem e as negras comandam. Tambm, soa tristemente, para elas, a hora da
servido. Na despedida, algumas at podem derramar algumas lgrimas (..., mas
o que todas lamentam infinitamente,  a vida indolente, o luxo das vestimentas, a
abundncia de tudo a que  preciso renunciar, para retormar a coleira da
misria. A ternura dessas criaturas no  desinteressada, est provado; amam o
pequeno a que do o seio, mas por que devem a essa maternidade ocasional todas
as satisfaes que a fortuna pode lhes conceder. 1853, Charles Expilly Le Brsil
tel qul est (202-220).


De acordo com os dados administrativos, sobre cinco mil setecentos e setenta
e cinco doentes internados, em 1852, no Hospital da Misericrdia, no morreram
menos de mil quatrocentos e quarenta. Nesse hospital, prximo ao grande asilo
de crianas abandonadas e, sobre quinhentos e trinta e seis crianas que foram
recebidas igualmente em 1852, morreram quatrocentos e sete no mesmo ano.
Atribui-se essa mortalidade terrivel  circunstncia de no haver seno uma ama-de-
leite para trs ou at quatro crianas; essas amas so escravas negras,
pertencentes a senhores ricos, que as alugam  razo de sessenta e setenta e cinco
francos por ms, depois de alimentar seu prprio filho: de maneira que, cada uma
das amas-de-leite continua a amamentar as crianas do hospcio, durante trs ou
quatro anos, o que deve necessariamente prejudicar o seu leite. 1855, W. Heine
(204-205)


A familia est mais resumida. Consta s da que vive no ninho conjugal, pai,
me e filhos; o resto so visitas mais ntimas,  exceo das vvs, sempre bem
vindas em todas as casas, boas velhotas para quem os pequenos correm alegres e
contentes enlambuzados de doces, --gritando por mais. Infelizmente os carinhos
dos pais perdem os filhos, que chegam  idade da razo ao colo das mucamas,
22#
23
sempre obedecidos, sempre satisfeitos em todos os caprichos. Geralmente
escolhem-se as amas entre as negras. Escravas voluntrias das crianas e leites
riqussimos e abundantes. Suportam com uma coragem admiravel os caprichos
destas, os berros, as longas noites em que os choros as no deixam dormir, sem
uma queixa e com uma pacincia bestial, que faz crer que a criana est no colo
dum autmato que adquiriu a qualidade de mulher, menos a alma. So a
mquina de amamentar na sua ltima expresso. Representariam uma conquista
do gnio do homem, se no fossem uma prova da inferioridade da espcie. A
cabra substitui a mamadeira, a negraa substitui a cabra, s a branca substitui a
me! 1876, Thomas Lino de Assumpo (48-49)


Violncia dos Moleques
Enquanto os militares atuaram de forma humana e louvvel,[ na Revolta de
So Cristovo de 9/ 06/ 1828] a plebe mostrou-se de uma ferocidade atroz. Os
moleques atacavam com suas facas todos os estrangeiros que encontravam por
perto e os mutilavam de forma selvagem; alguns, segundo fui informado, eram
perseguidos at a morte e depois esquartejados por seus algozes. Havia no Rio
vrios artesos irlandeses que exerciam ativamente sua profisso e estavam muito
bem de vida. Um deles, um alfaiate, voltava para casa com um monte de roupas
debaixo do brao, ignorando totalmente a rebelio que havia se iniciado, quando
deparou-se com dois moleques numa das ruas que dava para o Campo da
Aclamao; eles a atacaram com suas facas e depois de golpe-lo em vrias
regies de seu corpo, rasgaram seu ventre e o deixaram estrebuchando no cho,
com as vsceras penduradas para fora. Mais tarde mostraram-me um mulato
corpulente, de aspecto muito feroz e que agora trabalha no aougue Santa Luzia.
Ele fora visto, depois de restabelecida a ordem, brandindo um sabre
ensanguentado sobre sua cabea, vangloriando-se de que estava manchado com o
sangue de cinco estrangeiros que havia matado. 1828, Robert Walsh ( I p. 130).


Familiaridade entre crianas brancas e escravas
Os filhos dos escravos so criados com os dos senhores, tornam-se
companheiros de folguedos e amigos e, assim, estabelece-se entre eles uma
familiaridade que, forosamente, ter de ser abolida na idade em que um deve dar
ordens e viver  vontade, enquanto o outro ter de trabalhar e obedecer. Diz-se
que unindo assim, na infncia, o escravo ao dono, asseguram a sua fidelidade,
23#
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mas o costume parece encerrar grandes inconvenientes e deve, a menos, ser
modificado de forma a tornar o jugo da escravido menos penoso pela revogao
da liberdade primitiva 1809, John Mawe, (p. 91).


Depois do jantar descemos ao jardim: ela se deteve no caminho. Os negrinhos
choravam para ir passear com ela; ela os acariciou maternalmente, chamou uma
negra, fez vestir os que estavam despidos, lavar os que estavam sujos me
perguntando se eu queria esperar . . . eles tem a mania de no querer passear
sem segurar a mo da dona.. 1843, Baronesa E. de Langsdorff (107-108)


Mendigos
(...) .E como conseqncia inevitvel dessa desordem [abuso da bebida]
viram-se crianas de famlias alems arruinadas pedindo esmola nas ruas do Rio
de Janeiro. Entretanto a Arquiduquesa austraca Leopoldina, ento princesa real
na Corte do Brasil, madrinha natural da colnia de Nova Friburgo, esvaziou
vrias vezes seus cofres pessoais para socorrer as vivas e os rfos. 1816,
J. B. Debret( 262).


Casamento proibido entre negros
O jardim ... formava um verdadeiro contraste com as selvas em volta, o que a
ns pelo menos, como se pode imaginar, causou uma impresso de "muito
elegante". Somente os negros e alguns negrinhos que brincavam com as crianas
logo nos lembraram que no estvamos na Europa. A conversa, depois de pouco
tempo, versou sobre as dificuldades das viagens no Brasil. Os maus caminhos e
os negros que parece serem olhados aqui como um ser intermedirio entre o
homem e os animais, porquanto mesmo as senhoras asseveram quando se trata
deste assunto que: No estavam  altura do casamento e opinavam que por isto
"na Fazenda no deixavam nenhum negro casar!" 1842, Principe Adalberto da
Prssia,( p. 85).


Mes e Filhos
Vm-se (no Mercado) altas negras Minas, toucadas com um pano de
musselina em forma de turbante, com o rosto cheio de entalhos, tendo por toda
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vestimenta s camisa e saia, acocoradas sobre esteiras junto de seus frutos e
legumes; a seu lado esto os moleques, inteiramente nus. Aquela cujos filhos
ainda mamam, trazem-nos atados s costas por meio de um largo pedao de
fazenda riscada de todas as cores,  qual fazem dar duas ou trs voltas em torno
do corpo, depois de ter previamente colocado o filho sobre os rins, com os braos
e pernas abertos; o pobre pequeno conserva-se assim todo o dia abalado pelos
movimentos da me, com o nariz pregado nas costas desta, e quando dorme no
tendo a dabea nenhum ponto de apoio, rola constantemente. Alguns
molequinhos de trs a quatro anos voltavam com a sua rao de feijo que os
frageis estmagos mal podiam digerir: por isso quasi todos tinham grandes
barrigas, cabeas enormes, pernas e braos delgados, todos os indcios enfim de
raquitismo. Causava d v-los e eu nunca pude compreender porque, mesmo
como especulao, os negociantes de carne humana no tratavam mais
cuidadosamente a sua mercadoria. ... aps trs semanas volve aos duros
trabalhos da lavoura, enquanto o pequenino fica entregue a negras velhas ou a
meninos de seis a sete anos, que lhes do de comer um mingau feito de polvilho e
gua. Todos estes moleques e negrinhos viviam perambulando na cozinha ou no
pateo inteiramente nus; dormiam aos sete ou oito em cada quarto em esteiras,
quartos cujo ar no se renova seno por uma porta deitando para um corredor
sujo e ahi viviam em uma podrido de que no se pode fazer ideia 1851, Adle
Toussaint-Sanson( 17-44-45).


Um riacho sombrio porem lmpido deixa correr suas guas borbotantes
atravs de largos leitos escavados nos barrancos, que ficam entre dois espores a
pique da montanha do Corcovado. Passando por suas margens, veem-se grupos
de lavadeiras dentro dgua ou batendo roupa sobre as pedras que se espalham
em blocos ao longo do riacho. Muitas delas veem da cidade, de manh muito
cedo, carregando suas pesadas trouxas de roupa suja na cabea, e,  tarde,
voltam com roupas limpas na gua corrente e coradas ao sol. Veem-se vrios
pontos fumegando fogo, onde cosinham a comida e grupos de criancinhas
brincam em volta delas, algumas bastante crescidas para engatinhar at junto de
suas mes; a maior parte, porem, foi carregada at ali nas costas das
sobrecarregadas lavadeiras. .... Antigamente exercitavam-se muitos escravos,
desde menino, para colher e conservar especimes de entomologia e botnica, os
quais, praticando essa tarefa continuadamente, organizavam imensas colees.
So essas matas local favorito para naturalistas amadores, que, si animados pelo
entusiasmo caractersticos de seus atrativos, podem ainda vir a acha-los to
cheios de interesse como um Von Spix ou um Von Martius, cujas eruditas obras
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podem ser comparadas s de Humboldt e Bonpland sobre o Mxico e a Colmbia.
Nas casas de muitos dos fluminenses ricos, pode-se atravessar uma fila de
crianas de cabea lanosa, na maioria despidas de qualquer roupa, que tm
licena de correr por toda a casa e de se divertirem vendo as visitas. Nas familias
que tm alguma tintura de costumes europeus, esses desagradaveis pequeninos
bpedes so conservados no quintal. Um dos meus amigos costumava jantar
frequentemente em casa de um velho general, da alta sociedade, em torno de cuja
mesa pulavam dois pequeninos pretos de azeviche, que quasi se penduravam no
"pai"( como eles o chamavam) at receberem o seu bocado de comida das mos
deste, e isso se dava antes mesmo do general principiar a jantar. Onde quer que
as senhoras da casa se dirijam, esses animaizinhos de estimao so colocados
nas carruagens, e considerar-se-iam muito ofendidos em serem esquecidos como
qualquer filho espoliado. Eles so filhos da ama de leite da dona da casa, a que
ela concedeu alforria. E, de fato, toda ama fiel , geralmente, recompensada com
a alforria. 1853, Kidder e Fletcher( 116-118-148).


Escravos do clero
Nas fazendas do clero ou dos conventos os escravos so mais bem tratados....
Ensinam-se os filhos dos escravos a cantar na Igreja e do-se-lhes algumas
noes de catecismo. O trabalho cessa s sete horas da
noite. 1821, J. M. Rugendas, (. 183).


Orfos e Expostos
A Santa Casa de Misericrdia data de 1582;  uma das mais nobres
instituies que se possam conhecer --um floro da genuina catolicidade. Suas
bnos, como as que descem do alto, no distinguem idade, sexo, credo e
condio; nem escravos nem senhores, nem nacionais nem estrangeiros. 
tambm um asilo para os enjeitados. Os meninos so abrigados em Botafogo e
em certa idade so encaminhados para uma profisso. As moas ficam residindo
no estabelecimento da cidade e aprendem a ler, escrever, costurar, etc. A cada
aniversrio, moos solteiros podem encontrar aqui uma companheira de sua vida.
Quando dois concordam em se unir, os diretores da instituio indagam sobre o
carter e o futuro do candidato , e se a pesquisa resulta satisfatria, d-se ento o
casamento, momento em que a instituio fornece  noiva um dote de
quatrocentos mil-reis. Tendo ouvido falar muito sobre a exposio diria de
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crianas, e as facilidades que se do a fim de que os que queiram livrar-se delas
possam faz-lo discretamente, decidi-me ir observar o lugar de recepo. E isto,
at h pouco, dava-se no Hospital, mas  agora numa rua quase deserta, para
escndalo da Me Sagrada das Monjas, cujo nome leva. O engenho para receber
as crianas consta de um cilindro oco e vertical, e girando em torno de um eixo.
Um tero dele  aberto para dar acesso ao interior, e o fundo  coberto com uma
almofada. O aparelho  constituido de tal modo que  impossvel aos de dentro
verem os do lado de fora. Caminhei por toda a extenso da Rua Santa Teresa
sem perceber nada, mas vltando, uma placa, de apenas algumas polegadas sobre
uma porta fechada de um edifcio normal, chamou a minha ateno. A inscrio
era clara: "Expostos da Misericrdia, n. 30" Enquanto a lia, veio de dentro um
rumor de confirmao. A nica janela da fachada era prxima da porta e era, de
fato, o receptculo. O que eu tomara, quando passei pela primeira vez, por um
postigo verde, vi agora que era ligeiramente encurvado. Toquei-o, a sua abertura
girou rapidamente e logo uma sineta, ligada  roda, soou no interior
violentamente. Hesitei por um momento, mas quando os moradores de uma casa
do lado oposto abriram suas janelas para ver quem estava abandonando ali um
enjeitado  plena luz do dia, bati rapidamente em retirada. 1846, Thomas
Ewbank,( 288)


Qual seria a condio moral ou os sentimentos humanos dessas numerosas
pessoas que deliberadamente contribuem para expor a vida das crianas? Uma
circunstncia peculiar ligada a esse estado de coisas  o fato alegado de que
muitos dos expostos so produtos das mulheres escravas, cujos senhores, no
desejando os aborrecimentos e as despesas da manuteno das crianas ou
desejando os servios das mes, como amas-de-leite, exigem que as crianas
sejam enviadas  Enjeitaria onde, se conseguem sobreviver, sero livres. Um
grande edifcio para a acomodao dos expostos est sendo construido no Largo
da Lapa [Rio de Janeiro]. 1853, Kidder e Fletcher (I 129 e ss)


Anexo ao hospital funcionava uma casa para meninas expostas. Permitiram-nos,
por deferncia especial, visitar a instituio. Em toda a parte reinava a
maior limpeza e ordem. As meninas, de diversas idades estavam vestidas de modo
simples mas asseado e gozavam todas elas boa saude e mantinham-se em bom
estado de esprito. As perguntas que lhes dirigimos respondiam de modo simples
mas desembaraado, dando a impresso de crianas bem educadas. De fato
recebem boa educao e instruo. Ensinam-lhes trabalhos femininos, dos quais
nos mostraram alguns timos exemplares. Todos os anos, em data fixada, a visita
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 facultada ao pblico, oferecendo-se assim oportunidade aos homens de escolher
esposa entre as asiladas. A escolhida recebe como dote dda instituio um
enxoval de 300 mil ris. Asseguraram-nos que a direo da casa dos expostos
somente concede licena para casamento, depois de um minucioso estudo do
carter e das condies do pretendente. 1856, J. J. Tschudi, (24).


Acontece, s vezes, que os pais desejam retirar os filhos e, em determinadas
circunstncias e fornecendo provas de identidade podem faz-lo. 1887,
C. C. Andrews (43-46)


Os que nascem livres
Fazenda S. Francisco, 14 de agosto de 1881.
Minha Grete do corao.
Nest e pas, os pretos representam o papel principal: acho que no fundo, so
mais senhores do que escravos dos brasileiros. // Todo o trabalho  realizado
pelos pretos, toda a riqueza  adquirida por mos negras, porque o brasileiro no
trabalha, e quando  pobre prefere viver como parasita em casa dos parentes e de
amigos ricos, em vez de procurar ocupao honesta.// Todo o servio domstico 
feito por pretos:  um cocheiro preto quem nos conduz, uma preta quem nos serve,
junto ao fogo, o cozinheiro  preto e a escrava amamenta a criana branca;
gostaria de saber o que far essa gente, quando for decretada a completa
emancipao dos escravos.// Na nossa Europa muito pouco se sabe a respeito da
lei referente a esse assunto e imaginvamos que a escravido fra abolida.// Mas
no  assim. Foi determinado apenas que do dia de sua promulgao em diante,
28 de setembro de 1871, ningum mais nasceria escravo no Brasil.// Quem j
vivia como cativo nessa poca, assim permanecer at a morte, at o resgate ou
at a libertao. // Os pretinhos nascidos agora, no tm nenhum valor para seus
donos, seno o de comiles inteis.// Por isso no se faz nada por eles, nem lhes
ensinam como antigamente qualquer habilidade manual, porque, mais tarde, nada
rendero.// Como so livres, porm, os brasileiros tratam-nos com mais estima e
maior considerao do que os escravos natos. Assim, hoje ao meio-dia foram
solenemente batizados 8 desses cidados do mundo. Na hora do caf, tinha
notado um velhinho esquisito que falava pouco mas esse pouco numa lingua
completamente misteriosa para mim. O Dr. Romeiro respondia-lhe em italiano
28#
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que fala corretamente. O velho tambm despertara minha ateno por causa de
um gigantesco leno vermelho muito do seu agrado e pela incrvel quantidade de
bananas que comia, ou melhor, que devorava. // Fiquei admirada ao saber depois
que era um padre catlico viajante, o que nunca seria capaz de supor, mesmo
porque ele usava roupa civil. Era italiano de nascena e tinha estado em todas as
partes do mundo; da sua linguagem cosmopolita, que inventou muito antes de se
terem ocupado com isso na Europa. Ao meio-dia, abriu-se , na grande sala de
costura, um importante armrio parecido com um "buffet", cujo contedo j me
havia intrigado, aparecendo l dentro a Me de Deus com o Menino Jesus, fitas,
grinaldas, coroas, braceletes, colares e brincos.// O preto Felcio que me
acostumara a ver como alfaiate na mquina de costura, todo paramentado,
ajudou o padre como coroinha. Tudo isso parecia to estranho  minha alma
evanglica. . .// Ento, uma aps outra, vieram as mes pretas com seus rebentos
mais novos, todos muito bem vestidos e enfeitados com fitas de diversas cores;
alguns tinham at vestidinhos brancos bordados, devidos  bondade da "Santa
Inquisio"[ as trs filhas mais velhas da familia) que se haviam prestadod a
servir de madrinhas, fazendo cristos a seus irmozinhos pretos; alis, por falar
em cor, fiquei espantada dessas crianas serem de pele to pouco escura, quase
branca mesmo.// --"Eles vo ficar pretos"--disseram-me com um sorriso de
desprezo, em parte relativo aos pretos e em parte  minha ignorncia; s a planta
dos ps e das mos ccontinuaro claras. Eles dizem que quando Cam imigrou
para a frica, tinha, por ordem de Deus, tocado com as mos e os ps nas guas
do Jordo que recuaram, afastando-se dele, mas desse contato ficaram para seus
descendentes, mesmo sob o sol ardente da frica, essas partes mais claras. // A
cerimnia comeou e presenciei, calada, aqueles pequenos horrorosos de nariz
chato e cabelo encarapinhado, receberem nomes como Cesar, Felcio Messias (!),
Elias, Anglica, Maria Salom, Marcela e Ruth.// Por que no lhes davam nomes
mais simples do que esses que o padrezinho velho da algaravia italo-latino-portuguesa
lhes impunha por escolha e a pedido dos senhores, se para o resto da
vida tero de contentar-se com eeles< // Mesmo sendo casadas, a maior parte
dessas mes no tem nome de famlia. Por isso, os escravos libertos, na falta de
um sobrenome, adotam em geral, depois de livres, o da famlia dos antigos
senhores. Agradvel para estes, no ? 1881, Ina von Binzer (p. 35).


Crianas Adultas
Os pais brasileiros vivem com as crianas ao redor e as estragam a mais no
poder. Uma criana brasileira  pior que um mosquito tonto. As casas
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brasileiras no tm quarto para elas e, como se considera cruel por as
queridinhas na cama durante o dia, tem-se o prazer de sua companhia sem
intervalos ... No Brasil no existem crianas no sentido ingls. A menor menina
usa colares e pulseiras e meninos de 8 anos fumam cigarros. Encontrei um bando
de meninos voltando da escola, uma tarde. Um pequeno de aparentemente sete
anos tirou do bolso um mao de cigarros e ofereceu a um de cada vez. Ningum
demonstrou qualquer desaprovao de um menino to pequeno estar fumando. A
linguagem desses meninos  terrvel, embora eu precise admitir que, como os
cocheiros de Londres, no percebem que esto usando expresses chulas. 1886,
R. E. Edgecumbe (47 e 50).


Preparo para a Vida Adulta
Falta de Livros
lIlhus {Bahia} era cercada de hortas e pomares, que produziam pras, uvas,
repolhos e inmeras outras frutas e legumes do Velho Mundo. Uma grande
capela erguia-se no topo de um outeiro, e as casas caoadas de branco, bastante
numerosas, davam ao arraial um ar de bem estar e prosperidade. A venda era
mantida por um homem instruido, que tambm mantinha uma escola. Quando
entramos, fomos saudados pelo animado murmrio das crianas, que recitavam
em coro a lio num cmodo contguo. Fomos at l e deparamos com dez ou
doze meninos sentados em bancos, decentemente trajados, todos lendo juntos em
voz alta. Seus livros no passavam de cartas comerciais recebidas pelo seu
mestre e tratando de vrios assuntos relativos aos seus negcios, sendo cada folha
protegida de maneira que manuscritos to preciosos no sofressem com o
manuseio dos meninos. O professor via-se forado a se valer desse recurso
porque no dispunha de livros, e dessa forma seus alunos aprenderam a ler textos
manuscritos antes dos impressos. Algumas cartas eram quase incompreensiveis e
muito mal escritas, e na minha opinio teriam confundido qualquer escrivo do
Registro Pblico. Parecia-me espantoso que, numa poca em que os impressos j
eram to comuns, e em que havia tantos jornais e gazetas em circulao, ainda
no se tivesse cogitado da publicao de livros de ensino elementar. Prometi ao
professor informar-me no Rio sobre livros desse tipo e, se os encontrasse, enviar-lhe
um suprimento deles, o que ele considerou a melhor ddiva que eu lhe poderia
fazer.( Robert Walsh, I, 54).
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Escolas Lancasterianas
Existem duas escolas Lancasterianas no Rio mantidas pelo governo que
tenciona abrir mais nove em parquias diferentes, obrigando todas as escolas
privadas a adotarem esse mtodo de ensino. Visitei uma delas, a melhor de todas,
que fica perto da Academia.  um prdio muito espaoso, com capacidade para
abrigar 300 crianas; foi inaugurada h cerca de trs anos. Havia cerca de
cento e trinta alunos, filhos de lojistas e pessoas do ramo; eram pessoas
respeitveis e pertenciam a todas as raas. Estavam bem vestidas e eram muito
comportados. O professor sentava-se numa escrivaninha mais elevada e dirigia a
classe com um apito. Quando a aula comeva, o monitor tirava da parede um
semicrculo de ferro e o colocava no cho, onde ficava, enquanto as crianas
agrupavam-se  sua volta. Elas aprendiam a ler, a escrever e contar; no fim de
dois anos era feita uma seleo entre todos os que demonstrassem qualquer
vocao especial e passavam para as Academias. A educao era inteiramente
gratuita, e todos eram aceitos indiscriminadamente, com exceo dos pobres
escravos. A caligrafia parecia ser uma das principais preocupaes dos
professores. Na antiga escrita portuguesa, as letras eram quase verticaais,
distantes apenas 20 o da perpendicular. A maneira inglesa, inclinada em 35 o , foi
adotada agora, havendo grande empenho em torn-la generalizada. Parece que
todas as crianas fizeram muito progresso nessa rea; um professor mostrou-me
alguns trabalhos com certa satisfao. 1828, R. Walsh (I, 187-88)


Mobilizao Militar
...  uma prtica comum no Brasil os rapazes da cidade( So Joo del Rei,
Minas Gerais), portando armas, principalmente no dia de Corpus Cristi, que  a
festa mais importante do calendrio cristo. Em junho de 1826, cerca de oitenta
moos desfilaram, juntamente com os seus oficiais, no campo de So Jos. Aps
a cerimnia e a procisso, eles marcharam at a Cmara e ali depositaram as
suas armas, sendo em seguida dispensados. Entretanto, ao invs de lhes ser
permitido voltarem para suas casas, eles foram cercados por uma tropa de
cavalarianos, sendo por eles subjugados e em seguida informados de que haviam
sido recrutados como soldados. Os mais recalcitrantes foram tratados
brutalmente e postos a ferros, por insubordinao. Outros podiram permisso
para ir at suas casas, acompanhados de um guarda, a fim de avisarem os amigos
e pr em ordem os seus negcios, mas at isso lhes foi negado. Foram todos
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levados embora e mandados para servir o exrcito. Esse procedimento, segundo
me disseram, ocorreu simultaneamente em quase todas as cidades de Minas
Gerais. Todos os rapazes presentes s festividades foram recrutados e enviados
para fora da provncia, no tendo jamais voltado1829, Robert Walsh,( II, 79).


Anjinhos de Procisso.
A procisso de Quarta-Feira de Cinzas  dirigida pela Ordem Terceira dos
Franciscanos, que partem da Igreja da Misericordia, atravs das principais ruas
da cidade, at o Convendo de St. Antonio. Nada menos de vinte ou trinta andores
com imagens so carregados nos ombros. Algumas dessas imagens vo sozinhas,
outras em grupo, pretendendo ilustrar vrios acontecimentos da histria. bblioca
ou da mitologia catlica romana. As vestimentas e ornamentos dessas imagens
so do mais pomposo aspeto. Os estrados, sobre os quaes so colocadas, so
muitissimo pesados, exigindo quatro, seis ou oito homens para carrega-los, , nem
mesmo assim, estes suportam o peso por muito tempo; exigem substituiopor
outros, que, vo andando ao lado como pegadores extra de alas de caixo nos
enterros. As ruas esto apinhadas de milhares de pessoas entre as quais se vm
numerosos escravos, que parecem muito se divertirem por terem os seus senhores
empenhados, pelo menos uma vez, em trabalho pesado. Os senhores realmente
ficam exaustos sob o peso do andor. As imagens passam no meio da rua, os
acompanhamentos formando filas simples dos dois lados, cada qual conduzindo
uma vela acesa, de cera, com vrios ps de comprimento. antes de cada grupo de
imagens vem manchando um anjinho, conduzido por um padre, e espalhando
folhas e ptalas de rosa pelo caminho. ... Como o leitor pode estar ancioso em
conhecer que especie de anjo  esse que toma parte no espetculo, devo explicar
que h uma classe de anjos criada para a ocasi! ao, e que agem sob a tutela dos
santos exibidos. Pequerruchas de oito a dez anos, so geralmente escolhidas para
servirem de anjinhos, sendo para isso preparadas com as mais fantsticas
vestimentas. O principal objetivo dessas vestimentas  xibirem um corpete e duas
asas; a saia e as mangas so de grandes dimenses, utilizando-se para isso
rodas e armaes de vime, nas quais flutuam sedas, gazes, fitas, rendas,
lantejoulas e plumas de diversas cores. Na sua cabea colocam uma espcie de
tiara. Seus cabelos caem em aneis pelo rosto e pelo pescoo, e o ar triunfal com
que marcham mostra como plenamente compreendem a honra de ser o principal
objeto de admirao. 1853, Kidder e Fletcher,( 165-167).
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Educao das Mulheres
Os bordados, os doces, a conversa com as negras, o cafun, o manejo do
chicote, e aos domingos uma visita  igreja eram todas as distraes que o
despotismo paternal e a poltica conjugal permitiam s moas e s inquietas
esposas. .... Hoje ainda a educao de uma brasileira est completa, desde que
saiba ler e escrever correntemente, manejar o chicote, fazer doces e cantar,
acompanhando-se ao piano, num romance de Arnaud ou de Luiza Puget. At
agora as senhoras no tomaram da civilizao seno a crinolina, o ch e a
polca....  verdade que conservaram o cafun e o chicote, prova de que elas so
as principais escravas da casa. Mas que dizer da ignorncia das mulheres que
vivem no interior das provincias e nas fazendas? Nada. Seno que elas pouco tm
a invejar de seus maridos. Charles Expilly, Mulheres e Costumes no Brasil (401 e
405)


Anexo ao hospital funcionava uma casa para meninas expostas. Permitiram-nos,
por deferncia especial, visitar a instituio. Em toda a parte reinava a
maior limpeza e ordem. As meninas, de diversas idades estavam vestidas de modo
simples mas asseado e gozavam todas elas boa Escola de Marinheiros


Chegamos a uma porteira de pedra. Passar por ela sem asas era impossvel:
do lado de dentro ficava uma sentinela de mosqueto e baioneta. Era auxiliada
por um companheiro de quepe, jaqueta azul, uma caixa de cartuchos ao lado, e
uma espada  mo. Nenhum desses guerreiros ia alm de quatro ps de altura
nem dez anos de idade. Percebo que um deles era ndio. O que tudo isso
significa no conclu nem tive flego para perguntar. Deixaram-nos passar, e
passamos os dois suando e palpitando, exaustos, em direo do santurio.
Tomando ora este, ora aquele caminho, paramos finalmente para descansar,
quando H. me disse que o lugar tinha sido ultimamente pouco visitado por
devotos, e que o Governo tinha estabelecido ali uma escola para uma centena de
meninos serem educados como marinheiros. O comandante era seu velho
companheiro de armas. ... Junto a um mastro de bandeira perto da igreja,
ostentava-se um par de sentinelas liliputianas. Outros varriam os caminhos.
Numerosos indios esto entre eles, principalmente ndios domesticados, dos
estabelecimentos jesuticos. As autoridades recolhem-nos onde possam encontr-
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los e mandam-nos para as escolas navais daque. Dizem que acabam dando bons
marinheiros. Afirmou-se ainda que os aborigines, os selvagens e os mansos, ligam
pouco para os filhos, s vezes vendendo-os por um trago de cachaa, e que seus
filhos no do importncia maior aos pais. Para ilustrar estes sentimentos, o
comandante chamou, por sugesto minha, um rapazinho das proximidades do
Amazonas. Respondendo a interrogatrios, disse-nos que o seu pai tinha morrido
e que ele queria ir ver a sua me. 1846, Thomas Ewbank (196 e 199).


Indisciplina
A me brasileira quase invariavelmente entrega o seu filho a uma preta para
ser criado. Assim que as criaturas se tornam muito incmodas ao conforto da
senhora, so despachadas para a escola, e coitado do pobre professor que ttem de
impor-se a esse espcime irrequieto do gnero humano! Acostumado a dominar
suaas amas pretas, e com a ilimitada indulgncia de seus pais, mete-se na cabea
tudo poder e dever fazer para frustrar os esforos feitos para disciplin-lo. No
fazem isso por maldade, mas por falta de disciplina paterna. So afetivos e
doceis, embora impacientes e apaixonados, dotados de inteligencia, embora
extremamente preguiosos e incapazes de prolongada ateno. Rapidamente
adquirem uma tintura de conhecimentos: o francez e o italiano, so faceis para
eles, por serem linguas irms da portuguesa. A msica, o canto e a dana,
adaptam-se bem aos seus temperamentos voluveis; raramente tenho ouvido um
amador italiano cantar melhor do que os amadores do Rio de Janeiro e da Bahia.
Pianos, vem-se abundantemente em cada rua, e ambos os sexos se tornam seus
executantes consumados. (Kidder & Fletcher, 1853, 180-181) . . . O Dr. P. da S. --
cavalheiro que toma um profundo interesse por todos os assuntos de educao e
cujas idias aplica com sucesso aos seus prprios filhos, e que possui slidos
conhecimentos somados a belos dotes de esprito, disse-me uma vez "Desejo de
todo meu corao ver o dia em que as nossas escolas para meninas sejam de tal
natureza que uma jovem brasileira nelas se possa preparar, por sua educao
intelectual e moral, a tornar-se uma digna me, capaz de ensinar aos seus
prprios filhos os elementos da educao e os deveres para com Deus e os
homens: para esse objetivo, Sr.,  que estou me esforando". Escolas como essa
esto aparecendo, e algumas excelentes; mas, em oito casos em dez, os pais
brasileiros pensam ter cumprido seu dever mandando sua filha cursar, durante
alguns anos, uma escola da moda, dirigida por estrangeiro: --quando completam
treze ou quatorze anos, so da retiradas, acreditando o pai que a sua educao
est completa. Se  rica, est desde logo preparada para a vida, e pouco depois
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disso o pai apresenta-lhe algum dos seus amigos, com a consoladora observao:
'Minha filha, este  o teu futuro esposo". 1853, Kidder e Fletcher (180,181,182).


Educao Religiosa
Topei tambm com outra novidade {na procisso da Semana Santa] . Trs ou
quatro meninos estavam brincando e um deles, com no mais de seis anos de
idade, vestindo como um monge, uma batina preta, e de escapulrio branco,
fivelas nos sapatos e um enorme chapu. Ergueu o chapu e mostrou-me a
tensura no lugar exato. Aludindo a este fato, disseram-me que espetculos assim
era primitivamente muito comuns, mas que hoje no h no Rio mais do que doze
meninos assim vestidos, Ficaram assim em virtude de promessas de seus pais
(antes s vezes de terem nascido) a certos santos, em reconhecimento de favores
especiais recebidos. Santo Antnio protegeu a me deste menino, e em honra
deste santo, ele teve que vestir esta indumentria. ... Um menino de no mais de
seis a sete anos de idade entrou por uma porta lateral com uma galheta, uma
sineta e um guardanapo que ps sobre a mesa do altar de So Joaquim. Vestindo
uma batina de frade, o capuz pendendo para trs, um cordo  cintura, de
sandlias e pernas nuas,  o monge mais jovem em ao que jamais vi. . 1846,
Thomas Ewbank (182 e 194).


Educao do Corteso
Caa uma chuva fraca, mas formou-se uma procisso da baa ao palcio,
consistindo de oficiais do Exrcito, Marinha, membros do clero, ministros de
estado, cortesos e uma formosa escolta das damas de honra. D. Pedro
caminhava debaixo de um plio. Com a altura de aproximadamente l, 85 metros,
sua mulher dificilmente alcanava-lhe o brao. Alguns dos oficiais da mordomia
traziam os filhos junto --meninos de oito, dez e doze anos vestidos em trajes de
corte. Muitos destes tm, o direito de comparecer, por terem prestado servios
pessoais ao Imperador e terem-se tornado assim ex-oficio membros da mordomia.
Indagando-se qual a natureza de seu servio, disseram-me que poderia ser
apanhar seu leno, ou apresentar-lhe uma toalha aps as refeioes ou ento um
palito, ou uma caixa de rap, para o que os seus pais e amigos contribuiam para
favorecer uma oportunidade. So chamados os "nobres e jovens servidores do
Imperador", ttulo muito procurado. Ao batismo do pequeno prncipe, quatro
deles galgaram o primeiro degrau da escada da Glria, levando um pano para
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enxugar a criana depois de ungida. Como um fato indicativo de sentimento
republicano, um jovem brasileiro de minhas relaes recusou-se a suceder o seu
pai como "cavalheiro do quarto de dormir", dizendo que nunca prestaria um
servio desses a quem quer que fosse 1846, Thomas Ewbank. (204-205).


Dia 27 --Este  o primeiro dia do Setenrio --sete dias dedicados s sete
dores de Nossa Senhora. os jornais anunciam procisses. A procisso sair hoje
da Igreja do Bom Jesus, na Rua do Sabo.... O crepsculo ainda no tinha cado
e todas as candeias se acenderam como por magia; mas estava cansado e voltei
para casa, satisfeito de ter testemunhado um espcime, embora modesto, desses
espetculos eclesisticos-histrinicos que na Idade Mdia conquistavam os
pagos para a f. De ponta a ponta, soldados, oficiais e homens seguram os
quepes e chapus nas mos, e as numerosas irmandades nem os trouxeram de
casa. Contei cinqenta anjos. Alguns carregam turbulos, outros trazem flores
purpurinas. So meninas de seis a oito anos de idade, as mais belas que podiam
ser encontradas. Os pais rivalizam entre si em traj-las com vestes as mais ricas.
Suas faces so pintadas e trazem tranas postias, quando necessrias. Algumas
so preparadas por modistas profissionais. Tm na cabea coroas, diademas,
penas, grinaldas, etc. Uma parecia uma jovem Minerva, de elmo cintilante,
corpete vermelho e saias azuis, sapatos escarlates e meias carmesim. Algumas
esto vestidas de branco, sem qualquer pintura no rosto. Os seus vestidos,
excessivamente curtos, apresentam armaes de arame delgado, que imitam as
agitaes de ar, de modo igual s que so comunicadas s suas asas e nuvens.
Estas so de gaze colorida estendida sobre armaes informes que oscilam na
parte de trs do vestido. Em uma palavra, estas pequenas senhoritas se prestam
to bem ao papel que desempenham e com tanto engenho artstico, quanto as
fadas do teatro. 1846, Thomas Ewbank (160-161)


Arsenal Militar
Dia 10 --Visitei o Arsenal Militar e almocei com o corts comandante
Coronel V. Lisboa. ... Na sala de aula havia 200 rapazes de 6 a 12 anos, brancos,
pretos, mulatos e ndios, to perdeitamente misturados nos seus lugares quanto os
ingredientes do granito mosqueado. Aprendiam a ler, escrever, aritmtica e
desenho. Aos 14 anos, cada um deles escolhia o ofcio que desejava seguir --um
daqueles executados no Arsenal; esse ofcio lhe era ensinado, e ao atingir certa
idade o rapaz entrava para a artilharia. Dessa maneira assegura-se para o
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servio pblico um suprimento de carpinteiros, ferreiros, seleiros, fundidores,
maquinistas, etc. 1846, Thomas Ewbank( 64).


Educao Negligenciada
Algumas famlias mais cultas enviam seus filhos s universidades na
Alemanha, Frana e Inglaterra, onde habitualmente progridem muito, pois o
brasileiro  dotado de boa inteligncia natural e muito talento, que, quando
convenientemente desenvolvido  capaz de alcanar a mais elevada perfeio. //
Os meninos crescem na vadiagem e na m-criao e como os pais os deixam,
desde a infncia, quase que exclusivamente entregues  guarda e ao convvio dos
negros, tornam-se naturalmente parecidos com estes, em todos os sentidos, tanto
mais que os negros tambm na moral so seus mestres.// A educao das meninas
 negligenciada quase da mesma maneira e tambm elas so, em geral, deixadas
aos cuidados das negras. At se casarem quase nunca saem de casa , a no ser
quando sob a vigilncia da me vo  missa; companhia de homens lhes 
absolutamente proibida, e este rigor as leva freqentemente a se entregarem a
uma negra de sua confiana, que por caridade crist assume o honrado papel de
alcoviteira, com o que  satisfeita a natural inclinao das brasileiras para a
aventura, de modo que at as filhas das famlias melhores, mais cultas, apesar de
severamente vigiadas, quase sempre encontram oportunidades para desafiar a
vigilncia dos pais. 1825, E. Belman (p. 45).


Os Negros no so educados'
No Brasil, todos os trabalhos sujos e penosos da casa ou de fora so feitos por
negros, que aqui, em geral, representam a camada mais baixa. Contudo, muitos
aprendem ofcios e diversos tornam-se muito hbeis em sua arte, a ponto de poder
se comparar aos europeus mais capazes. Nas oficinas, eu vi os mais diferentes
negros ocupados na confeco de trajes, sapatos, obras de tapearia, bordados a
ouro e prata, e mais de uma negra, muito bem vestida, trabalhava em toilettes
para as mulheres mais elegantes e nos bordados mais delicados. Muitas vezes
pensei sonhar ao ver essas pobres criaturas, que eu imaginara como selvagens
libertados e vivendo em suas florestas natais, ocupadas em lojas e em oficinas em
trabalhos que exigiam muita ateno. E contudo, isso no parece lhes ser to
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penoso quanto se poderia crer: elas trabalham sempre com alegria e prazer. /
Nas classes que habitualmente denominamos de esclarecidas, existem pessoas
que, aps tantas provas de destreza e de inteligncia dadas pelos negros, ainda os
colocam tanto abaixo dos brancos, que mal os consideram como uma transio
entre o macaco e o homem. Admito, de boa vontade que, com relao 
instruo, no se aproximam dos brancos; apenas creio que no  preciso
procurar a causa, em sua falta de inteligncia, mas na falta completa de
educao. No existe escola para eles, no recebem qualquer instruo; numa
palavra, no se faz coisa alguma para desenvolver suas faculdades intelectuais.
So mantidos de propsito numa espcie de inf^ ncia, segundo velho hbito dos
Estados despticos, pois o despertar desse povo oprimido poderia ser terrivel./ Os
negros so quatro vezes mais numerosos que os brancos e, no dia em que
compreenderem a fora que tm nas mos, com essa superioridade numrica, a
populao branca poderia tomar o lugar que  hoje ocupado pelos infelizes
negros. 1846, Ida Pfeiffer (29-30).


Aula de Costura na Fazenda
A dona da casa nos levou a visitar, certa manh, os diversos locais de
trabalho. O que mais nos interessou foi a sala em que as meninas aprendem
costura. Admiro-me que no se tenha cuidado mais, nas nossas plantaes do
Sul, em tornar as pretas um pouco hbeis nesse mister. Aqui todas as meninas
aprendem a costura muito bem e muitas delas bordam e fazem rendas com
perfeio. Em frente a essa sala, vimos uma oficina de roupas, que me pareceu
bastante semelha nte a nossas sanitary rooms, com suas peas de l ou de
algodo, que as negras cortavam e costuravam para os trabalhadores do campo.
1865. E. C. e L. R. Agassiz (89-90)


Cutura Oficial
Por estranho que parea, o Brasil no tem uma universidade regular! / O
cime com que qualquer cidade investida com alguns privilgios e prerrogativas 
vista pelas restantes,  a razo que levou o Governo a separar as escolas mdias e
jurdicas, a fim de que cada uma das quatro principais cidades do Imprio
usufrua da presena de determinada quantidade de estudantes. Assim, as escolas
de Medicina esto no Rio de Janeiro e na Bahia, enquanto as de Jurisprudncia
ficam em So Paulo e Pernambuco. O nmero de alunos desses estabelecimentos
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chegou, nos ltimos anos, em mdia, acima de mil. Grande nfase foi dada pelo
Governo, principalmente nos ltimos tempos,  ampliao da instruo pblica.
Em maro de 1857, havia atravs do Brasil, 2.452 escolas (765 particulares e
1.687 pblicas) em que se deu educao a 82.243 crinas dos dois sexos. Entre
as instituies educacionais de classe alta, o Colgio D. Pedro II sobressai e 
frequentaddo atualmente por cerca de novecentos estudantes. Uma escola
industrial, tendo por objeto a instruo de pessoas capazes, foi aberta em 1956 e
esto sendo introduzidas classes para o ensino de Filosofia natural e de Cincia
poltica e administrativa. Entre os estabelecimentos cientficos do pas, o Instituto
Histrico e Geogrfico ocupa o primeiro lugar, com reunies freqentadas pelo
Imperador, como presidente honorrio. Esta instituio, que no Brasil ocupa
uma posio semelhante  da Academia de Cincias, em Viena, dirige sua
principal ateno  publicidade de velhos documentos e manuscritos referentes 
Histria do Brasil e  populao aborgene; mas, as pesquisas referentes 
histria natural esto tambm incluidas em seu domnio de pesquisa. Os
naturalistas do Novara compareceram a suas reunies, que tiveram lugar numa
das alas do palcio. 1857, Karl Scherzer (144-145).


Escola de Professoras Estrangeiras
Rio, 21 de fevereiro de 1882.
Oh! Grete, ando com este colgio por cima da cabea!// Acho sinceramente
que sou pssima professora! No aprendem nada comigo e, se houver inspetores
escolares por aqui, vou ficar desmoralizadssima! No consigo habituar-me a este
ensino superficial; mas, quando comeo a aprofundar-me ainda  pior: fico
completamente desanimada. // A respeito da disciplina, ento! S essa palavra j
me faz subir o sangue  cabea. // Imagine isto: outro dia, ao entrar na classe,
achei-a muito irrequieta e barulhenta e na minha confuso recorri ao Bormann.
Quando obtive silncio para poder ser ouvida, ordenei: "Levantar, sentar", cinco
vezes seguidas, o que no nosso pas nunca deixa de ser considerado vergonhoso
para uma classe. Mas, aqui, --oh! Santa Simplicitas! --quando cheguei a fazer-lhes
compreender o que delas esperava, as crianas estavam to longe de
imaginar que aquilo representasse um castigo, que julgaram tratar-se de uma boa
brincadeira e pulavam perpendicularmente como um prumo, para cima e para
baixo, feito autmatos, divertindo-se regiamente.// Reconheo ser indispensvel
adotar-se uma pedagogia aqui, mas ela deve ser brasileira e no alem, calcada
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sobre moldes brasileiros e adaptada ao carater do povo e s condies de sua
vida domstica. As crianas brasileiras, em absoluto, no devem ser educadas
por alemes;  trabalho perdido, pois o enxerto de planta estrangeira que se faz
 juventude daqui, no pegar. 1882, Ina von Binzer,( 67)
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